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Ribeiro Sanches
Apresentação
Há 300 anos nasceu Ribeiro Sanches, um grande vulto do Século XVIII !

Na segunda metade do Século XVIII, a Europa culta conhecia de uma forma reverente o grande médico e pensador português que foi António Nunes Ribeiro Sanches cujo tricentenário se comemorou em 1999. Recordar a sua vida e obra é recordar uma figura que foi, no Século das Luzes, um prestigiado cidadão europeu que, embora afastado da sua Pátria, nunca a renegou e, pelo contrário, a honrou como poucos o têm feito.

Nascido em Penamacor em 7 de Março de 1699, frequenta a Universidade de Coimbra de 1716 a 1719 mas vem a licenciar-se em Medicina em 1724 pela Universidade de Salamanca e a exercê-la durante dois anos. Todavia, em 1726, devido à insegurança em que viviam todas as famílias de origem judaica, sai do país e fixa-se na Holanda onde aprende com o grande Boerhaave. Este, reconhecendo o seu valor, recomenda-o à corte imperial da Rússia. Contratado em 1731, adquire tal prestígio dentro e fora daquele país que em 1739 é escolhido para médico da corte e eleito membro da Academia de Ciências de S. Petersburgo, recebendo, no mesmo ano, igual distinção da Academia de Ciências de Paris.

Retirado da Rússia em 1747, estabelece-se em Paris e aí convive e colabora com os maiores vultos do Iluminismo. Desse lugar de exílio escreve as suas obras fundamentais e é consultado pelas personalidades mais notáveis da Europa culta de então. Naquela cidade publica a Dissertation sur la Maladie Vénérienne, em 1750 seguido do Tratado da Conservação da Saúde dos Povos em 1756. Em 1760 manda imprimir a obra Cartas sobre a Educação da Mocidade, uma das suas obras fundamentais, a que se segue o Método para Aprender e Estudar a Medicina em 1763. Colabora depois com Diderot e d'Alembert na Encyclopédie. Mais tarde (1774) publica-se, em Lisboa, a obra Examen Historique sur l'Apparition de la Maladie Vénérienne en Europe e depois, em Paris (1779), a sua Mémoire sur les Bains de Vapeur en Russie. Lamentavelmente, só depois da sua morte, ocorrida em 14 de Outubro de 1783, é publicada na Encyclopédie Méthodique, em 1787, a sua obra Dissertação sobre as Paixões da Alma, (no artigo Affections de l'Âme). Mas ficaram esquecidas dezenas de obras sobre Medicina, Educação, Economia e Política, além da sua importante correspondência e do seu Journal (cuja leitura mostra quanto era considerado por toda a Europa), deixados em manuscritos que se dispersaram por bibliotecas de Paris, Madrid, Lisboa, Viena e Braga. De facto, tendo contribuído limitadamente para a reforma educativa de Pombal (que rejeitou as suas propostas de reformas políticas ao não permitir a divulgação das Cartas sobre a Educação da Mocidade), o país deu-se ao luxo de ignorar os seus manuscritos dispersos e deixar no esquecimento as poucas obras impressas. Parecia que tudo iria mudar quando Maximiano de Lemos publica, em 1911, Ribeiro Sanches: a sua vida e a sua obra , mas temos de esperar 1956, para lermos, numa iniciativa de Raul Rego, Origem da Denominação de Christão Velho e Christão Novo e o ano de 1959 para a Universidade de Coimbra tentar o lançamento das suas obras. Infelizmente o projecto parou no II volume, em 1966. Nesse mesmo ano, um estrangeiro, David Willemse, escreve António Nunes Ribeiro Sanches - éleve de Boerhaave - et son importance pour la Russie, onde reproduz o catálogo da biblioteca de Ribeiro Sanches, vendida após a sua morte e que demonstra bem a vasta cultura e erudição do grande português. No entanto, só em 1971 vamos poder ler, pela mão de Vítor de Sá, "Dificuldades que tem um reino velho para emendar-se e outros textos", uma boa parte da colectânea de textos manuscritos existentes na Biblioteca Pública de Braga. Depois, aparecem vários estudos, algumas cartas… e foi tudo, até ao final de 1998.

E é a Câmara Municipal da terra natal de Ribeiro Sanches que, apesar dos seus limitados recursos financeiros, se atreve, no ano do seu 300º aniversário a editar uma das suas obras inéditas em português, a Dissertação sobre as Paixões da Alma, com a organização do texto e notas de Faustino Cordeiro e a financiar a reimpressão da excelente tese de António Rosa Mendes, Ribeiro Sanches e o Marquês de Pombal - Intelectuais e Poder no Absolutismo Esclarecido. O lançamento das duas obras em 7 de Março de 1999, constituiu não só uma forma digna de exaltar uma grande figura de Penamacor, mas foi também um execelente exemplo do trabalho a fazer pelo poder político a todos os níveis. E tal acto teve logo um fruto que pode ser muito saboroso para os amantes da cultura nacional: nesse mesmo dia, uma instituição privada, a Universidade Lusíada, assumiu o compromisso de promover a edição das obras de Ribeiro Sanches. Estamos certos que os portugueses que lutam pela preservação da sua cultura agradecerão sempre a concretização de tal empreendimento. Quem poderá conhecer a obra de um dos maiores vultos do Século XVIII se não houver um esforço para a divulgar ?

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